“O Mauritano”: Tahar Rahim enche de alma um drama brando e convencional sobre a prisão da Baía de Guantánamo

⭐️⭐️⭐️

O realizador Kevin Macdonald dá rosto aos prisioneiros injustiçados da Baía de Guantánamo, através das memórias de Mohamedou Ould Slahi.

SINOPSE: Uma história verídica de sobrevivência que relata a luta pela liberdade de Mohamedou Ould Slahi após ser detido pelo governo dos EUA, e encarcerado, durante anos, sem julgamento, na Baía de Guantánamo. Slahi encontra os seus únicos aliados na advogada de defesa Nancy Hollander e na sua associada Teri Duncan, as quais, contra o governo dos EUA, lutam por justiça. Através da controversa defesa de Slahi, juntamente com provas descobertas por um notável procurador militar, o Tenente-Coronel Stuart Couch, descobre-se a mais chocante verdade…


Bush criou-a, Obama não a conseguiu fechar, Trump prolongou-a indefinidamente e Biden já prometeu que colocará um cadeado nos seus portões.

Apesar do escândalo que abalou a administração Bush, a prisão da Baía de Guantánamo continua a funcionar, perante a indiferença à tortura e desumanidade que lá foram infligidas: privação de sono, humilhação sexual, afogamento simulado, heavy metal em altos decibéis. Foi com esta violência desmedida, calibrada para quebrar qualquer um mental e espiritualmente, que o Governo dos EUA conseguiu obter confissões falsas de prisioneiros ali encarcerados sem qualquer acusação formal de terrorismo.

Foi o caso de Mohamedou Ould Slahi, “O Mauritano”, assinalado como possível recrutador dos terroristas envolvidos no 11 de Setembro. Aprisionado durante 14 anos, sujeito às maiores atrocidades, manteve a resiliência e o espírito lutador. Algo que lhe permitiu enfrentar os tribunais (com o apoio da advogada dos direitos humanos Nancy Hollander) e requerer “habeas corpus”. Durante este processo, escreveu “O Diário de Guantánamo”, publicado em 2015 e bastante censurado pelo governo americano.

Esta memória serve como alicerce ao novo filme do realizador Kevin Macdonald (“O Último Rei da Escócia”, “Touching the Void”), aqui determinado a carimbar um nome e um rosto nas vítimas injustiçadas da “War on Terror”.

Macdonald navega pela teia burocrática, a censura, o sigilo e a confidencialidade de informações, colocando-se do lado bom da história, elevando as intenções e alguns “malabarismos” dos advogados envolvidos: Nancy Hollander (Jodie Foster), conselheira de Slahi (Tahar Rahim) e Stuart Couch (Benedict Cumberbatch), o militar que lidera o processo de acusação.

Tudo isto é feito de forma convencional, superficial e externa, sem coragem de atacar o lado mau da história ou dar respostas às razões efetivas do longo encarceramento, mas disposta de forma a que os dois advogados convirjam na sua reação à odisseia interna de Slahi. Porque ele é o cerne de “O Mauritano”, interpretado pelo excelente Tahar Rahim (a revelação incrível do francês “Um Profeta”), que nos faz vivenciar uma estratégia de sobrevivência assente em humor, inteligência e fé, num mar de contradições que a tortura, espancamento, repreensões e humilhações originaram.

Vale a pena reforçar: enquanto Kevin Macdonald se perde numa edição exagerada de “torture porn” ou enche o filme com sessões de tribunal e de interrogatório na prisão, bem como leituras infinitas de documentos, é densa e pulsante a capacidade do assombrado Tahar Rahim em encher de alma um homem que se recusou a quebrar.

Quando na sequência final, o próprio Mohamedou Ould Slahi surge em cena, cantando “The Man in Me”, de Bob Dylan, é inolvidável a incrível resiliência e espírito de viver deste Mauritano. E o ator faz-lhe plena justiça. Finalmente…


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