Luca: Santa Mozarella! Ghibli à italiana.

⭐️⭐️⭐️⭐️

Com todos os ingredientes de um coming-of-age escapista e nostálgico, Luca traz consigo a essência da amizade e da pertença.


Silenzio Bruno!” É assim que Luca e Alberto calam a sua voz da consciência, sempre enviesada para a falta de coragem e a agir de forma conservadora. Mas quem é Bruno? Não sei, nem eles sabem, mas todos temos um que volta e meia nos impede de revelar o nosso verdadeiro eu.

Luca“, o novo filme da Pixar, é sobre isso mesmo. Sobre o sonhador Luca (Jacob Tremblay), que vai descobrindo e assumindo a sua verdadeira identidade, enquanto enfrenta os seus medos e vive o verão da sua vida. Lado a lado com o extrovertido Alberto (Jack Dylan Grazer) e a excêntrica Giulia (Emma Berman), irá saborear a essência da amizade, activando os sentidos com gelado, pasta, viagens de bicicleta, fantasias de Vespa e mergulhos no mar.

Com todos os ingredientes de um coming-of-age escapista e nostálgico, que nos envolve naquelas memórias saudosas da adolescência de quando podíamos assumir o “dolce far niente”, Luca traz consigo a essência da amizade e da pertença, da solidão e da inclusão, da diversidade e do reconhecimento da individualidade. E faz isso pela metáfora da metamorfose, pois Luca e Alberto são monstros marinhos que ao pisarem terra, se estiverem secos, conseguem transformar-se em humanos.

O realizador Enrico Casarosa, que nos presenteou com o inspirador La Luna em 2011, transmite aqui uma mensagem universal, que encoraja os jovens a serem eles próprios, deixando margem para cada um aplicar o seu próprio espectro de interpretação à relação existente entre os três personagens, numa idade pré-puberdade sem complicações hormonais.

Inspirado pela era dourada do cinema italiano, chegando mesmo a evocar filmes como “La Strada” e “Roman Holiday”, Casarosa compõe a ambiência vívida da pequena vila costeira de Portorosso na Riviera, com características únicas daquele tempo e da comunidade: a construção pós-guerra, os mitos e os horrores do mar, o sofrimento próprio de um povo piscatório, a alegria de viver transmitida pelos maneirismos exagerados e pelas comidas apetitosas como focaccia e pasta, e a Vespa, símbolo de liberdade e imaginação.

Envolvendo estes tópicos com o encanto espiritual e o folclore das séries e filmes de Hayao Miyazaki, de onde se percebem inspirações e referências a “Conan – O rapaz do Futuro“, “Porco Rosso“, “Kiki – A Aprendiz de Feiticeira“, entre outros, a equipa de animadores de Luca absorve também a mestria técnica dos projectos do realizador japonês, para explorar a dicotomia da natureza sub-aquática com a terrena e as transformações de monstros-marinhos para humanos.

Se o mundo subaquático tem verdes-escuros e azuis-cobalto, algo turvo e desfocado, o terreno é brilhante, de cores garridas, expressivas, simbolizando o entusiasmo de Luca, sedento de aprendizagem e temas novos.

Já a metamorfose física de Luca e Alberto enriquece esta inspirada animação. Se o registo fluido e gracioso define os movimentos dos monstros marinhos, complementados com texturas de aguarela e contornos mais robustos; enquanto humanos, estes são mais rápidos e arrojados, compostos por poses bem vincadas e detalhadas.

Com isso, aglomerando o sentido de definição de identidade com a expressividade estética, Enrico Casarosa e a sua equipa excedem-se num momento particular: quando a perspectiva se inverte e o próprio Luca, em estado humano, olha Alberto em estado de monstro-marinho, os estilos de animação também se invertem, esclarecendo a Luca como é que os humanos veem os monstros. Ajudando-o assim a ter coragem para enfrentar o Bruno e revelar-se a si próprio.

Disponível no Disney+ a 18 de Junho, “Luca” é espirituoso, ternurento e um óptimo bálsamo para a alma, nestes tempos que queremos que sejam pós-covid e abram a vida para um verão de grandes memórias.


About The Author
-

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>