Free Guy: Herói Improvável – Ryan Reynolds vai de noob a pro gamer numa aventura do mundo dos videojogos.

⭐️⭐️⭐️

Comédia romântica, filme de acção, o novo filme de Shawn Levy esconde uma sátira sobre o mercado das propriedades intelectuais e o trabalho tóxico da indústria.

Ryan Reynolds é Guy, um banqueiro resilientemente optimista que saúda o seu peixe dourado todas as manhãs, veste sempre a mesma camisa azul e calças caqui, bebe o mesmo tipo de café, e cumprimenta toda gente com a sua catchphrase: “Não tenha um bom dia. Tenha um grande dia!”. Tudo isto com um sorriso inocente pregado na cara, mesmo quando o seu banco é assaltado, dia após dia após dia após dia.

Isto até Guy compreender que não é de todo real, apenas um NPC (non-playable character) preso num videojogo. Tudo o que o envolve é ilusório, a sua existência desenhada num loop infinito. Ele é um código binário que forma um elemento acessório num background, presente num universo povoado por jogadores/avatares, agentes do caos, protagonistas do videojogo Free City.

O que distingue os jogadores dos NPCs é a utilização de óculos de sol. Quando Guy põe as mãos num desses pares de óculos, como que saídos de They Live de John Carpenter, vê a sua existência expandir-se, descobrindo um universo de skins, celebrações, power-ups, loots, kits de energia e missões. Senciente, começará a questionar as regras deste mundo e a acreditar que o seu maior sonho se pode tornar realidade: encontrar a mulher da sua vida, que por acaso é a Molotov Girl, avatar de Millie (Jodie Comer), a designer do jogo que luta por reaver os direitos do mesmo.

Pelo caminho, Guy imbui-se de espírito de missão, e num twist que se demarca dos comportamentos mais banais dos videojogos, em vez de se juntar à anarquia e agir com violência, escolhe fazer o bem e proteger os restantes NPCs…tornando-se uma estrela no mundo real.

Regozijo para os amantes de filmes e videojogos, o argumento de Matt Lieberman e Zak Penn é uma constância de humor intrincado e um frenesim de homenagens. O realizador Shawn Levy coloca o carisma de Ryan Reynolds ao centro de um jogo/filme onde a acção em primeiro plano e a carnificina que acontece em segundo plano, fazem-nos viajar pelo mapa da cidade, descobrindo uma parafernália de easter eggs que disputam a nossa atenção.

Enquanto a candura e a ingenuidade de Reynolds evocam filmes como Elf, Wreck it Ralph, The Lego Movie ou The Truman Show; a violência e jogabilidade lembra-nos Fortnite e Grand Theft Auto, onde as perseguições de carros, explosões, tiroteios e o armamento infindável, guiam o nosso olhar para alusões cada vez mais surpreendentes. Não percam os créditos finais para verem quantos cameos de grandes estrelas vos passaram ao lado!

É curiosa e nada ingénua, a postura do realizador Shawn Levy, que utiliza e explora com sarcasmo vários elementos de diferentes propriedades intelectuais, gozando com a forma mercenária como a iconografia e a marca de um grande grupo, seja ele cinematográfico ou da indústria dos videojogos, são monetizadas, esgotadas e constantemente recicladas.

Filme da Disney – cuja actividade de produção assenta muito em remakes, sequelas e franchises – Free Guy defende o individualismo, o propósito, a criatividade na arte e o livre arbítrio. De modo nada inocente chega a divertir-se de si próprio, escarnecendo de franchises como Marvel e Star Wars, (também estas propriedades da Disney), e fazendo do seu vilão – (o cada vez mais excêntrico e único Taika Waititi), um CEO que compra conceitos originais, para depois os arquivar, e que valoriza mais as sequelas de sucesso financeiro garantido.

Assim, com ironia, Free Guy, um filme sobre videojogos que não se baseia num videojogo real, assume as teias meta existencialistas de um universo cyberpop onde os NPCs ganham vida, e de amorfos, passam a agentes activos, estabelecendo uma nova ordem no sistema virtual e real.

Com este jogo de camadas, Liebermann, Penn, Levy e Reynolds, constroem uma ação-comédia que simplifica os conceitos de simulação e satiriza a indústria. Mas no seu núcleo, este é um filme sobre empoderamento, sobre crença e amor, sobre a vontade que o normal Guy tem de sair do background e agarrar o papel de protagonista da sua própria vida.


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